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Clarice, 100 anos: autora revolucionou linguagem e inspirou reflexões


10 de dezembro de 2020

“Eu tinha medo de falar. Eu não me enxergava”. Não saber ler ou escrever fez com que Eudenice Moura Augusto buscasse o silêncio. Tinha vergonha de não conhecer as palavras, de pedir ajuda, de “ser livre”. Tudo aconteceu muito rápido. Quando criança, trabalhava na roça com os pais. Aos 12, ajudava a família a plantar e a colher arroz, feijão e milho. Eudenice nasceu em Corrente, cidade sertaneja do sul do Piauí. Mudou com a família para Tocantins e depois para o Distrito Federal. Aos 18, foi trabalhar como doméstica. Hoje, mesmo aposentada, sustenta a casa com diárias para lavar, passar e cozinhar. Ela lembra que, aos 20, estava casada. Depois, vieram os três filhos. E estudar não era prioridade.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

“Queria conversar com as pessoas, mas não sabia. Nem decifrar o letreiro do ônibus, entender os avisos no mercado ou ler um livro”. Eudenice é de verdade, de nosso tempo, mas poderia ser história de Clarice Lispector, uma das principais escritoras do século 20, nascida há exatos 100 anos. Tal qual Macabéa, personagem imortal de A hora da estrela (1977), obra consagrada da autora, ela se sentia presa e abandonada. “A história de Macabéa se resume à sobrevivência quase inumana, pois, para tudo o que se sente e deseja, não dispõe de palavras para expressar”, descreveu a professora Clarisse Fukelman, na apresentação da 23ª edição do livro.

Mas na história de Eudenice, o destino é diferente da ficção de Macabéa. A liberdade da empregada doméstica surgiu ao conhecer, em São Sebastião (DF) um projeto social de alfabetização. Os cadernos passaram a ser grandes amigos. Mora no que chama de um “barraco” na periferia e trabalha em uma “casa grande” no Lago Sul (zona nobre de Brasília). Mesmo assim, o mundo mudou para ela. “Gostei muito de aprender as palavras. Consigo agora falar com os meus patrões. Nunca achei que saberia falar ou escrever sambódromo ou tamarindo ou vassoura”.  Ela terminou o ensino médio e agora sonha fazer faculdade.

A simetria das emoções que permeiam a história real de Eudenice com a história inventada de Macabéa reforça a capacidade da escritora, que nasceu na Ucrânia e mudou-se para o Brasil com 12 anos, fugida da guerra naquele país, de colocar no papel sentimentos universais. Clarice, segundo os estudiosos e críticos, descortinou, ao assumir a imprecisão das palavras, temas ligados ao feminino e tantas questões existenciais que nem sempre dá para expressar.

“Tempo de morangos”

As obras da autora despertam paixão especial, no entender de Regina Pontieri, porque trata de questões existenciais. “Ela envolve a escrita com paixão. Os leitores quase afundam na cadeira a tal ponto que ela cativa. O leitor se sente Clarice Lispector”. Para quem quer começar a esmiuçar a obra da autora, a sugestão é começar pelos contos, como em Laços de Família. “Clarice é eterna como todos os grandes escritores. Sempre nos desperta. Este é um momento que a gente deveria reler. Não só ficar na internet. A literatura nos desafia. Quando a gente se pergunta, é porque estamos vivos”. A autora desafia a viver, respirar, pensar, aproveitar cada instante. Ou, em outras palavras possíveis, o encerramento de A Hora da Estrela é um exemplo da lembrança para viver o dia, o tempo, a estação:  “Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. Sim”.

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