
A recente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, que derrubou as chamadas tarifas globais impostas pelo ex-presidente Donald Trump, trouxe um novo cenário para a indústria exportadora brasileira. No entanto, para o setor madeireiro do Sul do país — especialmente no Sul do Paraná e no Planalto Norte de Santa Catarina — os efeitos da crise comercial já deixaram marcas profundas, com demissões, férias coletivas e até fechamento de empresas.
A cadeia produtiva da madeira é uma das principais bases econômicas de cidades como São Bento do Sul, Rio Negrinho, Mafra, União da Vitória, Bituruna(A indústria madeireira representa cerca de 87% da economia local, o município foi um dos mais afetados no estado), Porto União e diversos municípios da região. Com forte dependência do mercado externo — especialmente dos Estados Unidos — as tarifas impostas em 2025 provocaram queda nas exportações e retração nas encomendas.
Entre os casos mais emblemáticos está o Grupo Ipumirim, de Ipumirim (SC), que anunciou férias coletivas para cerca de 500 funcionários após a suspensão de contratos de exportação de molduras de madeira destinadas ao mercado norte-americano.
Em São Bento do Sul, polo nacional da indústria moveleira, a Artefama Móveis realizou demissões em massa após uma reestruturação forçada pela queda nas vendas. Segundo o Sindicato das Indústrias do Mobiliário (Sindusmobil), a redução dos pedidos externos comprometeu a sustentabilidade operacional de várias empresas do setor.
A indústria Millpar, que fabrica produtos à base de madeira no Paraná, fechou as portas da sua planta de Quedas do Iguaçu. Além disso, a empresa também fez uma demissão em massa na unidade de Guarapuava.
Entenda o que motivou a crise
Em abril de 2025, os Estados Unidos aplicaram uma tarifa de 10% sobre produtos brasileiros, posteriormente elevada para até 50% em determinados itens. A medida atingiu diretamente setores exportadores, incluindo madeira beneficiada, molduras e móveis.
A política fazia parte da estratégia comercial da Casa Branca de impor “taxas recíprocas”. No entanto, por 6 votos a 3, a Suprema Corte entendeu que a legislação utilizada — criada em 1977 para situações de emergência — não autorizava o Executivo a criar tributos sem aprovação do Congresso.
A decisão representa um revés significativo para a política protecionista adotada à época e abre caminho para a normalização gradual do comércio.
Apesar do alívio no cenário jurídico, especialistas do setor avaliam que a recuperação não será imediata. Muitos contratos foram cancelados, clientes buscaram fornecedores em outros países e algumas empresas reduziram permanentemente sua capacidade produtiva.
Além das férias coletivas e demissões, há registros de empresas de menor porte que encerraram atividades ou suspenderam operações temporariamente, impactando diretamente o emprego e a renda em municípios cuja economia depende da indústria madeireira.
Expectativa do setor
Entidades empresariais da região destacam que a decisão da Justiça americana pode restabelecer a competitividade dos produtos brasileiros, mas defendem medidas de apoio, como linhas de crédito, incentivos à exportação e diversificação de mercados.
Para o Sul do Paraná e o Planalto Norte catarinense, a retomada das exportações representa mais do que recuperação econômica: significa a preservação de milhares de empregos e a estabilidade de uma das cadeias produtivas mais tradicionais da região.



