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“A gente não pode mais aceitar que brincadeiras desse tipo aconteçam”, diz vereadora de UVA sobre caso do professor da Uniguaçu


26 de março de 2021

A vereadora de União da Vitória Thays Bieberbach (PT), foi convidada ao Jornal Colmeia de sábado, 20, para falar sobre o caso do professor da Uniguaçu que em aula online disse “Se o estupro é inevitável e eminente, relaxa e aproveita”. A fala aconteceu no dia 12 de março e ganhou repercussão nos grupos de WhatsApp e redes sociais no dia 19. A instituição de ensino emitiu nota relatando ter desligado o professor. Também foi instaurada uma queixa-crime contra o mesmo.

O caso chegou a alcançar a mídia nacional com publicação na página Quebrando o Tabu e matéria no Portal do G1.  

Para o portal o professor se manifestou por meio de uma nota:

“Tendo em vista os acontecimentos advindos da divulgação de vídeo contendo pequeno fragmento descontextualizado da aula transmitida via Internet em razão das medidas impostas pela pandemia do COVID-19, gostaria de esclarecer, com integral respeito, o que segue.

Ao exemplificar uma situação, foi utilizada expressão popular que, após a devida reflexão, se mostra integralmente inapropriada e que não poderia ser aceita com naturalidade ou indiferença. Não se pode deixar de reconhecer o machismo estrutural presente em nossa sociedade que, infelizmente, reproduz comportamentos os quais devem ser devidamente enfrentados de modo construtivo, para que todos possam aprender e progredir para uma sociedade mais respeitosa e igualitária. Reconhece-se este erro e será buscado o necessário aprendizado com essa situação.

Feita esta reflexão, entende-se que a trajetória acadêmica e a carreira no magistério não podem ser avaliadas por uma expressão isolada. Expresso desde logo meu pleno respeito à todas as mulheres, jamais pretendendo ofendê-las ou agredi-las. Externo minhas mais sinceras desculpas e fico à disposição para prestar os esclarecimentos devidos no sentido de ser desfeito este lamentável fato”.

Thays trabalha há quase 10 anos com atendimento de violência contra mulheres em União da Vitória e toda região sul do Paraná. Para ela esse tipo de fala não pode ser aceitável em nenhum momento, não podendo haver a justificativa de que foi tirada de contexto ou que foi uma brincadeira. “A gente não pode mais aceitar que brincadeiras desse tipo aconteçam”, ressaltou.

Imagem: Rádio Colmeia

Ser contra a violência contra as mulheres e repudiar a cultura do estupro, é não permitir que a reprodução desse tipo de piada, brincadeira ou frase fique impune nos círculos de amizade, familiar e profissional. É importante não naturalizar esse tipo de conduta na sociedade.

União da Vitória é uma das cidades mais violentas do estado do Paraná para as mulheres viverem. No mapa da violência de 2012 o município ficou na quarta posição em assassinato de mulheres. Em 2015 ficou na 5ª posição.  

Thays colocou que a atitude da instituição de ensino foi o mínimo que a sociedade esperava, mas que só esta atitude não basta. “As instituições representam os anseios da sociedade. Se a sociedade é machista, as instituições também são, então a gente precisa achar formas de combater esse machismo que é estrutural”, disse.

O machismo estrutural ainda está muito arraigado em várias esferas, sendo elas do ensino, judiciário e política. A violência voltada para as mulheres não é algo que acontece apenas no lar.

Após a emissão da nota de esclarecimento da Uniguaçu, a vereadora disse que conversou com várias acadêmicas de cursos diferentes e também com um professor da Uniguaçu. Por telefone, ela relatou que iriam se organizar e que a pressão para com a instituição não iria acabar com uma nota. “A gente está cansada de nota”, disse Thays.

Ela continuou que não é só uma instituição de ensino que permeia esse tipo de estrutura, são várias. A violência contra as mulheres acontece com mulheres e meninas de diferentes idades, diferentes locais e classes sociais.

Em 2017 outro caso envolvendo questões de machismo e assédio foi registrado na Uniguaçu. Os acadêmicos do curdo de engenharia emitiram um comunicado e fixaram em um dos corredores da faculdade. O comunicado pedia para os alunos do curso de Direito que deixassem de obstruir o trânsito no corredor em horários de pico. “Gostamos de passar por aí, tendo em vista que suas acadêmicas são uma delícia”, estava escrito em seguida. Ao final do comunicado foi colocada a frase “Garantindo sempre o bom fluxo das novinhas no grau acadêmico”. Na época houve grande repercussão mas nada de efetivo foi feito por parte da instituição de ensino.  

Sobre o atual caso, na Câmara de Vereadores, Thays em conjunto com os coletivos feministas Mais que Amélias, Rosas do Contestado e outros dos municípios vizinhos, lançaram uma carta aberta de repúdio visando cobrar medidas mais efetivas do Centro Universitário, para que não seja um caso abafado.

Para a vereadora trabalhar as questões da violência contra mulher apenas no legislativo não adianta. As políticas públicas para as mulheres precisam andar em conjunto com as políticas do Estado e do Governo Federal. “Nós precisamos que o executivo trate essa pauta como algo importante”, pontuou. Thays lembrou que na época de campanha ou em datas comemorativas, se cansa de ouvir os políticos falarem da importância de acabar com a violência contra mulheres mas na hora de “colocar a mão na massa” não tratam o assunto como deveriam.

Dia 8 de março

Este foi o primeiro ano que não foram realizadas as atividades para o 8 de março no município, por conta da pandemia. Thays conta que está com saudades de estar nas escolas e nas comunidades realizando debates e organizando seminários.

Habitualmente nas duas primeiras semanas de março eram trabalhadas as questões relacionadas as mulheres, a origem do dia internacional da mulher, a história da conquista das mulheres no Brasil e no mundo e também sobre o é o movimento feminista e o que são os feminismos.

O que dispara nos boletins policias são as ocorrências de violência doméstica, apesar das conquistas dos últimos anos na área de amparo a violência contra mulher. Foi conseguido recentemente através do Governo do Estado a patrulha Maria da Penha, uma demanda já de 8 anos. A patrulha está atualmente funcionando uma vez por semana. O Botão do Pânico Virtual via aplicativo do 190 da Polícia Militar também já está em uso.

A Delegacia da Mulher está instalada em União da Vitória desde 2016, mas a falta de efetivo acaba prejudicando o andamento dos trabalhos. Além de União da Vitória, a delegacia atente os municípios de Bituruna, Cruz Machado, General Carneiro, Paula Freitas e Porto Vitória.

Imagem: Rádio Colmeia

Dificuldades encontradas no caminho

Das dificuldades que se encontram no caminho para combater a questão da violência, as mulheres se deparam com instituições machistas. Locais como delegacia e judiciário, por carregarem o machismo estrutural, acabam dificultando a chegada das denúncias por parte das mulheres. Mesmo havendo provas concretas de violência, muitos dos casos param e não tem prosseguimento. O julgamento e culpabilização da vítima também são um dos motivos mais decorrentes de muitas mulheres não quererem denunciar os tipos de violência que sofrem.

Em um caso que Thays conta, havia uma situação em que o homem queria matar uma mulher e ela ajudou a denunciar o ocorrido. Além da demora da polícia para chegar ao local, quando se depararam com o suspeito, os policiais o cumprimentaram com aperto de mão e se negaram a registrar o boletim de ocorrência. A justificativa era de que os policiais e o homem bebiam juntos há mais de 10 anos. Após o fato, Thays ainda sofreu ameaças de morte por parte do homem.

Câmara de Vereadores

Na sexta sessão da Casa de Leis, o ex secretário de Saúde de União da Vitória, Dr. Ary Carneiro Júnior, foi convidado para falar sobre o tratamento precoce para Covid-19. A vereadora é contra esse tipo de tratamento. Após fazer uso da palavra na sessão, Thais foi alvo de Fake News e sua fala sobre o tratamento precoce foi tirada de contexto. O vídeo circulou por diversos grupos de WhatsApp e redes sociais.

“Pegaram um vídeo meu, publicaram em vários grupos assim e, os comentários que teve foram muito baixos. Pessoas que nem me conhecem, não conhecem minha trajetória, falando coisas muito absurdas, atacaram meu filho, atacaram minha família, me ameaçaram, perseguiram”.

Thays é contra o tratamento precoce com base na fala de vários especialistas. A Sociedade Brasileira de Infectologia e a Anvisa já emitiram pareceres explicando que o tratamento precoce não existe. Para ela, ver que a Câmara de Vereadores defende ivermectina, cloroquina, quando o próprio fabricante de ivermectina já publicou nota falando que o medicamento não tem eficácia no tratamento para Covid-19, “é inadmissível”, pontua. “O que que está acontecendo na Câmara de Vereadores em que os vereadores não leem, não procuram as informações?”

O ex chefe da 6ª Regional de Saúde, Dr. Ricardo Krzyzanowski, foi convidado a falar na Câmara de Vereadores para fazer o contraponto ao tratamento precoce. Thays ressalta que trazer falas e opiniões diferentes à Casa é importante pois a Câmara precisa ser plural e a democracia funciona assim.

“Me incomoda a ideia de que até o dia 31 de dezembro estava tudo funcionando no município e que a partir do dia 1º de janeiro as coisas não funcionam. Eu sei que é difícil, está todo mundo perdido, mas eu vejo que precisa de ações que andem em conjunto”.

Para a vereadora é bem perigoso quando políticos falam que o que acontece no Governo Federal não atinge o município e quem diz isso “não conhece política, não sabe o que está fazendo na política”, disse. Thays ressalta que o Governo Federal está brincando com a pandemia desde o início. Com a última nomeação, Marcelo Queiroga é o quarto ministro da Saúde desde o começo da pandemia.

Já passaram pela pasta, neste período, os médicos Luiz Henrique Mandetta, que estava desde o início do governo Bolsonaro, e Nelson Teich, seguido depois pelo general Eduardo Pazuello, do Exército.

A vacina ainda é a única forma de barrar a pandemia e voltar a vida normal. Para a vereadora ver o Presidente fazendo piada sobre a situação é inadmissível. “Quando ele fala isso, pessoas que apoiam ele reproduzem isso no seu município, no seu bairro, na sua casa, colocam você em risco”, finaliza.

Acompanhe a entrevista completa na íntegra:

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